[Excerto] “Vite, Milou, au musée Ethnographique!”: quando o tIntim sai \nde casa a correr, no início de A Orelha Quebrada, o seu visível entusiasmo não \nprovém de um particular interesse em exposições ou em colecções de etnografia exótica: acabou de ser anunciado na rádio que durante a noite o museu foi palco de um intrigante assalto e que desapareceu um fetiche muito raro. \nUma parte da atracção operada pela obra de hergé resulta sem dúvida da \nsua notável capacidade para dar um valor icónico aos seus desenhos: um carro, \num polícia ou um foguetão desenhados por ele não são um carro, um polícia ou \num foguetão quaisquer, são o carro, o polícia e o foguetão, quase que arquetipais. Da mesma maneira, nalgumas pinceladas, as imagens da primeira página \nde A Orelha Quebrada chegam para nos mostrar uma instituição que parece \ncorresponder exactamente à sua imagem mais difundida no imaginário partilhado: monumentalidade da entrada; organização por áreas geográfico-culturais extra-ocidentais; rotulagem descritiva e descontextualizadora; artefactos \nseleccionados antes de mais por razões estéticas; público burguês contido, cuidadoso (já que as vitrinas são algo estranhamente raras aqui) em não quebrar \na distância física, limitando um deleite que só pode ser visual; guarda fardado, \ndetentor de inquestionável autoridade institucional, mas que trata os objectos \ncom a familiaridade de um coleccionador blasé, etc. Em suma, mais ou menos \naquilo que um estudante em antropologia formado hoje em dia aprende que \num museu etnográfico não deve ser. [...]
Tiago Corbisier MatheusRicardo Bresler